detesto quando a velha dentro de mim reprime
as súbitas vontades inconsequentes de menina

o menino-velho tinha o peito 
todo protegido por um escudo de cobre e medo

acordava cedo e destinava o dia a levantar muralhas
com o panorama prejudicado não observava que de pedra e cal 
é só o a__bismo

ainda exigia que houvesse compreensão dos desvios
proteção ilusória de vida
enquanto escutava:
lança-se ao mar, vamos, moleque! que a água gelada te acorda.

fincado em terra experimenta o auto-engano da segurança
quando nem mesmo o mundo é fixo
estacionado
um saveiro que flutua no infinito

mistério é o contato
chama que queima
e não se apaga sufocada

quero receber um livro
que nem no outdoor do metrô 
na janela violetas
alguém tem o contato da assessoria de imprensa do drummond?
os kardecistas poderiam me explicar por que aqui na terra só circulam humanos
os anônimos?
pessoa virou samambaia
dostoievski uma pedra
e clarice página do facebook

a contagem dos dias se dá qual na guerra
a dos mortos
mágoa após mágoa e
o critério de ilusões 
é de livre-arbítrio tanto faz 
se queres ver um menino mimado chorar por pirulito
ou 
um velho requerer por direito de tempo sua vontade imposta

as lágrimas nunca foram tantas
incontáveis jamais
secam
peixe carente de terminações nervosas

olha, um cachorro, reconheço teu direito a ração tapete biscoitos
e vacinas anuais 
cá do alto com sua sujeira resquícios
de uma subserviência vassala

e deus criou a cadeira alimentar permitiu
ao homem consumir o porco, o boi e a galinha
exceto a maçã proibida,
que poderíamos chamar: olhos

abençoados de lucidez e sabedoria
surto messiânico por falta de leite materno
desta terra que há de nos comer 

e você sabe o que falo por nós

preciso me limpar, começa assim:
não me contaram que quando eu saísse do colo morno e da barra do vestido de mamãe
- que nunca embalou-me tampouco usou saias; mas bateu muito bolo, verdade taurina seja dita - 
seria entregue a este ilustre desconhecido:
o mundo, amor.

lá-vem-a-noi-va, to-da de bran-co,
“tá chorando por quê? você veio porque você quis”, 
disse o pai no casamento da minha irmã.

no velório do japão não se usa preto,
e assim também me visto, neste gesto em que algo se interrompe pra ter como teto quiçá a semi-sincronicidade.

um vaso que tinha na mesa de casa
eu sempre quebrava sempre colava e sempre minúsculas peças irrecuperáveis partiam

os taoístas dizem que o que se usa do vaso é justamente o não vaso,
mas não é sobre isto que eu gostaria de falar
      ainda que o tao seja sobre tudo, 
      inclusive a redundância.


depois que uma coisa quebra, tem conserto se eu não sou dos manuais?
ou se dispuser-me a aprender, fazer um curso, artesão e oficina, você ainda estará lá esperando o anel de vidro? 

não me importa.

a saliva que arde e cura de meu orixá
veneno semelhante,
precipício sem redes de proteção,
Orfeu.

1, 2, 3.

Z
  Á
    S

arremesso.

e se nosso filho morrer de fome, não será culpa minha, ou
ou talvez seja só desidratação.

daí é esperar chover.

outro lugar para nos enterrarmos

meio dia de inverno a vontade de provocar
fui ao cemitério visitar meu pai
ele não atendeu, não quis abrir

se vencida fosse pela morbidez de verificar se restou apenas o pó
não seria condenada, de maneira alguma:
ausentes as testemunhas visuais
todos os pecados podem ser cometidos - no silêncio -
até um baseado herege ao pé da árvore

embora houvessem muitos insetos, mal sabiam diferenciar uma carne morna,
enquanto o sangue não se esgota que importa tua temperatura?
ignoram apenas as flores de plástico
essa fantástica invencionice humana,
poupam um tempo da gente,
visitemos os nossos mortos uma vez na vida
e levantemos jazigos, significados que só servem a nós
que criamos prisões como hospitais.

ainda que eu falasse a língua dos homens e dos anjos, sem:
- sol;
- ar;
- água e sais
            minerais,
eu nada seria.

A  V I D A  É  F O R T E.

minha vênus exaltada torre de marfim
contra um exército de marte, plutão
prefere o silêncio das pedras
cenário do tempo
diferença entre intenção e gesto,
ritmo de delicadeza e justiça

pra inutilmente quem sabe, Carlos?
fazer-se de nero
e tocar fogo em todas barbas compradoras da verdade
pseudo-deuses do olimpo de palitos de fósforos

vai ser diferente
eu vou sabotar 

resta então imaginarmo-nos
como primeiras ranhuras de uma moeda
co-centrais e opostas
quiçá o movimento horizontal 
coloque a caminhar para as bordas
em formato de ondas
e assim toquemo-nos no fim 
ficando apenas as cinzas

drástica
vou mudar o corte de cabelo pra me chamarem de radical

estou que nem a lua: fora de curso
inferno comigo é sempre astral
exoesqueleto de esponja
coração caixa de areia mijo de gato
no compasso da maré rompante